domingo, 6 de dezembro de 2009

Para assistir: A Festa da Menina Morta

Dor na contradição

Dor. Essa é a palavra profética pronunciada ao final de A Festa da Menina Morta. Profecia retroativa, porque doloroso é o caminho até ela. O respeitado ator Matheus Nachtergaele (Baixio das Bestas) estreia no roteiro e direção de um filme, revelando um olhar cru e cruel, áspero e seco, de difícil deglutição.

O que mais incomoda na história é a proximidade entre céu e inferno, espiritualidade e selvageria. No centro do misticismo católico-profano de uma comunidade à beira do Amazonas está uma figura que, ao mesmo tempo em que abençoa e faz milagres, também carrega características homoeróticas e é vítima/cúmplice de incesto.

Se nós, moradores das grandes cidades brasileiras, reagimos com estranheza diante da realidade de um outro brasil, tão distante, seria hipocrisia culpar o público europeu que chegou a abandonar a exibição no meio do Festival de Cannes, onde A Festa da Menina Morta estreou em 2008 durante a mostra Um Certo Olhar.

O filme é composto por longos fragmentos arrastados, fechados em si mesmos, porém conectados em sentido e pelo enredo. Simbolizando o primitivismo da população, há vários inserts entre as cenas, todos com animais encarcerados, domesticados, camuflados ou abatidos.

As primeiras informações sobre o que se desenrola vão sendo mostradas aos poucos, de maneira sutil, até que as dúvidas e negações do público sejam escancaradas na tela. Nachtergaele joga com os valores e a permissão da plateia. Ao longo da trama, o diretor fornece apenas parcas tintas, o necessário para que, no clímax – um longo e intenso diálogo durante o qual ele reflete sua experiência teatral nos atores –, cada espectador complete seu próprio quadro, ora mais cético, ora mais místico.

As atuações recriam tanto a naturalidade da população ribeirinha quanto o gestual exagerado do teatro. No primeiro caso, revelam as bases reais para a concepção da história, inspirada numa celebração religiosa que o diretor testemunhou no interior da Paraíba, quando ainda atuava em O Auto da Compadecida. No segundo, transpõem para a tela uma arte que, muitas vezes, requer um talento mediúnico para fazer os outros acreditarem naquilo que não está lá.

Além de dirigir, Nachtergaele co-escreveu A Festa da Menina Morta com Hilton Lacerda, mesmo roteirista dos igualmente vicerais Amarelo Manga e Baixio das Bestas, nos quais o diretor atuou. Nos papéis principais estão Jackson Antunes (2 Filhos de Francisco), Juliano Cazarré (Nome Próprio), Daniel de Oliveira (Cazuza – O Tempo Não Pára) e Dira Paes (Baixio das Bestas), contando ainda com as participações de Paulo José (Saneamento Básico) e Cássia Kiss (Chega de Saudade).

Apesar do filme só ter entrado em cartaz no circuito nacional em junho deste ano, ele vem rodando vários festivais no Brasil e no mundo desde 2008. No ano passado, em Gramado, conquistou o Kikito de Ouro nas categorias Melhor Ator (Daniel de Oliveira), Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora. E apesar de não ter levado o troféu de Melhor Filme, recebeu o Prêmio Especial do Júri, o Prêmio da Crítica e foi eleito o Melhor Filme pelo Júri Pupular. Obrigatório.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Para assistir I: Distrito 9

Duas produções atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros se apropriam de estilos distintos aos seus gêneros para contar suas histórias. Distrito 9, do estreante Neill Blomkamp, e Bastardos Inglórios, do veterano Quentin Tarantino, criam algo novo mesclando fórmulas conhecidas. O primeiro usa o formato de documentário para narrar uma ficção científica. O segundo emprega a linguagem do western para desenvolver um filme de guerra.

Os aliens somos nós

O primeiro mérito da ficção científica Distrito 9 é extrair um resultado original de um dos temas mais desgastados do imaginário popular. As invasões alienígenas já foram assunto em diversas mídias. E continuam sendo. No início de novembro, a série de TV oitentista V - A Batalha Final ganhou remake pela rede estadunidense ABC. Nos quadrinhos, a minissérie Invasão Secreta, da Marvel Comics, chega ao final também este mês no Brasil. E uma das animações infantis a serem lançadas neste final de ano trata justamente do tema: Planeta 51.

Distrito 9 mostra mais uma "invasão", porém sem o sentido lato da palavra. Os extraterrestres estão aqui porque não conseguem voltar ao seu planeta de origem. Moribundos e famintos, são acolhidos de maneira crítica: acomodados em um gueto, abusados civil e moralmente e separados do resto da população.

Tal como escritores do naipe de H. G. Wells (Guerra dos Mundos), Philip K. Dick (Minority Report) e Isaac Asimov (Eu, Robô), o diretor sul-africano não trata a ficção científica como mera fantasia. Mas, no lugar de filosofar sobra a natureza humana, Blomkamp faz uma denúncia social. Usando as memórias do Apartheid, regime político sob o qual viveu durante a infância, ele retrata a realidade da segregação racial em um país multiétnico.

A linguagem documental, diametralmente oposta ao gênero, confere-lhe um caráter absurdamente realista. São mostradas imagens de arquivo e entrevistas com antropólogos, sociólogos e outros profissionais que procuram explicar o impacto da presença dos alienígenas, anos após sua chegada, na população de Johanesburgo, maior cidade sul-africana. No entanto, Blomkamp não se apega ao formato no decorrer de toda a produção.

Aos poucos, o documentário vai dando lugar a uma trama filmada no estilo reality show, inaugurado por A Bruxa de Blair e, até agora, restrito ao gênero de terror. Mais adiante, a câmera-personagem é deixada de lado e passamos a acompanhar uma ficção normal. Apesar do estilo híbrido, a transição é feita com cuidado e não gera estranheza. Mas o desenvolvimento da história reserva alguns pontos negativos.

Certos acontecimentos-chave, essenciais para o andamento do roteiro, são baseados em coincidências ou fatos pouco prováveis. A repetição de situações assim passa a ideia de uma resolução pobre. Outro porém é o texto, que muitas vezes sublinha o óbvio ou o que deveria ser deixado nas entrelinhas, como o fato da nave-mãe não estar sobrevoando Nova York ou outra cidade mundialmente importante. Nesse caso, soa como um autoelogio pela quebra de paradigma. São pequenos detalhes que arranham uma proposta inovadora.

Antes de começar a escrever e dirigir, Neill Blomkamp trabalhava nos efeitos visuais de séries de TV como Stargate e Smallville. Com sua experiência, criou os ETs do curta Alive in Joburg (2005), que serviu de premissa para Distrito 9. Outro de seus curtas, Crossing the Line (2008), foi co-dirigido por Peter Jackson (O Senhor dos Anéis), que decidiu financiar seu longa de estreia. O elenco desconhecido conta com Vanessa Haywood (Hey Boy), Jason Cope (Juízo Final), Nathalie Boltt (Juízo Final) e os estreantes David James e Sharlto Copley, que vive o protagonista. Copley, que não pretendia ser ator, também participou de Alive in Joburg e hoje faz parte do elenco principal da adaptação para o cinema da antiga série de TV Esquadrão Classe A.

Para assistir II: Bastardos Inglórios

Arma Ideológica

Bastardos Inglórios é uma engraçada, romântica, dramática e ultraviolenta homenagem de Tarantino ao cinema ianque e alemão. A guerra deflagrada por Hitler era tão ideológica quanto militar. E a sétima arte, devido à sua influência na época, foi um importante campo de batalha entre os dois polos do conflito, o Estados Unidos e a Alemanha.

Referências a produções cinematográficas dos dois países atravessam a tela com a mesma intensidade dos tiros trocados entre nazistas e aliados. Até mesmo as personagens recebem nomes e sobrenomes de cineastas e atores. E acredite: mesmo não entendendo nenhuma indicação, você vai se divertir do mesmo jeito. Até mesmo uma menção aparentemente aleatória ao filme King Kong esconde uma alusão a um dos filmes preferidos pelo Führer.

A trama se passa durante a ocupação alemã na França, enquanto um grupo paramilitar norte-americano tenta se infiltrar nas fileiras inimigas sediadas em Paris para acabar com a guerra. Coincidência ou não, a escolha do palco para ambientar um filme com tantas homenagens à história do cinema alemão é irônica. A capital francesa é reconhecida por ter abrigado aquela que seria a primeira exibição cinematográfica do mundo, feita pelos irmãos Lumière. No entanto, o marco inicial da sétima arte foi estabelecido em detrimento de algumas projeções anteriores, como a dos irmãos Skladanowski, na Alemanha. O filme daria voz a uma rixa histórica nesse meio.

Mas a maior ironia, esta sim claramente intencional, Tarantino reservou para o desfecho: um plano para assassinar os maiores líderes do Terceiro Reich na estreia de um filme. Durante a execução, o material exibido - uma propaganda do exército nazista - é substituído por uma película com as características do expressionismo alemão, arte considerada decadente pela cinematografia de Goebbels e a ideologia inquisidora de Hitler, que destruiu muitas de suas obras. Além de ser tema recorrente na filmografia de Tarantino, desta vez a vingança está presente até nas entrelinhas.

Homenageando o lado adversário, a estética de Bastardos Inglórios se distancia do gênero de guerra e aproxima-se do maior representante do cinema norte-americano: o western. De um lado, os aristocráticos alemães fazem o papel dos colonizadores. Do outro, os estadunidenses caipiras representam os selvagens. Em jogo, as terras do oeste europeu. As principais características do gênero que ficou conhecido no Brasil como faroeste estão lá: escalpos, tiroteios em locais fechados e confrontos em forma de duelo.

Bastardos, claro, reserva referências a dois dos maiores realizadores dos filmes de cowboy. O compositor Enio Morricone está presente com oito músicas. O diretor Sergio Leone também. Dividido em capítulos, o filme teve sua primeira parte entitulada Once Upon a Time in Nazi-Occupied France, uma referência ao clássico de Leone Once Upon a Time in the West, reconhecido como um dos melhores westerns de todos os tempos.

O título, na verdade, seria usado na própria produção, antes de ser alterado para Bastardos Inglórios, inspirado no filme italiano The Inglorious Bastards (Quel Maledetto Treno Blindato). Se a primeira opção tivesse sido mantida, a última fala da trama teria feito ainda mais sentido para Tarantino: "acho que fiz a minha obra-prima".

O elenco americano-franco-germânico de Bastardos Inglórios cria um desfile de sotaques na tela: Brad Pitt (O Curioso Caso de Benjamin Button), Mélanie Laurent (Paris), o ator austríaco e revelação internacional Christoph Waltz (Berlin Blues), Eli Roth (À Prova de Morte),  Michael Fassbender (300), Diane Kruger (Tróia), Daniel Brühl (Adeus, Lênin!), Til Schwiger (Rei Arthur), Gedeon Burkhard (The Last Train), Jacky Ido (A Massai Branca), B. J. Novak (Reine sobre Mim), Omar Doom (À Prova de Morte) e August Diehl (Buddenbrooks). Roth, que também é diretor (O Albergue), foi responsável pelas cenas do filme nazista exibido na última sequência, O Orgulho da Nação. Entre as figuras históricas importantes estão Joseph Goebbels, vivido por Sylvester Groth (O Leitor), e Adolf Hitler, interpretado por Martin Wuttke (Silent Resident). O filme ainda conta com aparições de Mike Myers (O Guru do Amor) e Julie Dreyfus (Kill Bill), a narração de Samuel L. Jackson (The Spirit) e a voz ao telefone de Harvey Keitel (Cães de Aluguel).

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Para ler: Whiteout

Armário congelado

“O Gelo é o lugar que mais venta na Terra. Os ventos catábicos sopram do planalto em direção ao oceano. Com rapidez. Algumas vezes, eles chegam a 320 quilômetros por hora. Com esse tipo de vento, a temperatura cai para a casa dos três dígitos. O vento levanta a neve que tem caído no Gelo por milhares de anos, jogando tudo pelos ares. Acaba com a visibilidade, você não consegue ver meio metro à sua frente, não dá para diferenciar o chão do céu. Isso é o que chamam de 'whiteout'. As pessoas congelam até a morte nos 'whiteouts'... corpos encontrados a poucos metros do calor e da segurança... mortos porque não conseguiram ver a maldita porta...”.

Esse é um trecho da primeira experiência do romancista policial Greg Rucka com os quadrinhos. A minissérie em quatro capítulos Whiteout: Morte no Gelo foi lançada nos EUA em 1998, mas só chegou ao Brasil em 2007. Foi necessário o anúncio de uma adaptação cinematográfica para que uma editora brasileira se interessasse pela publicação. Dois anos depois, há poucos dias da estreia nas telas tupiniquins, o massacre da crítica que o filme recebeu nos EUA e os prêmios aos quais a obra original foi indicada quase 10 anos atrás lançam a pergunta: o que se perdeu entre uma mídia e outra?

Whiteout, a graphic novel, é uma ótima história policial, a começar por sua premissa básica: a primeira investigação de assassinato no continente antártico (apelidado de “O Gelo” no fragmento acima). A ambientação da trama a afeta de tal forma que se torna uma das suas personagens principais. A quantidade de informações sobre a região entremeando o texto é enorme e muito bem aproveitada para dar origem a fatos e circunstâncias. O leitor sente como se estivesse cercado pelo gelo e o clima se torna tão perigoso ou mais interessante que o assassino à espreita.

Ao mesmo tempo em que se apega às leis dos mestres da criminologia literária na condução da história, Rucka desafia algumas convenções. A mais notável é a identidade do vilão, que não é mantida em segredo. O roteirista trata o leitor como cúmplice e desde o início revela quem são os antagonistas. No entanto, não se vale do texto para mostrá-lo, mas das ilustrações de Steve Lieber. Para perceber a informação, é necessário acompanhar as ações mais sutis dos quadros. Dessa forma, o mistério, objetivo de toda obra do gênero, é em parte desfeito. E somente um bom escritor se arriscaria tanto, valendo-se de outros artifícios para manter o interesse do público.

E aí entra o que Whiteout tem de melhor, ao lado de seu cenário: as protagonistas. Quebrando mais uma convenção, Rucka divide a narrativa em primeira pessoa entre duas investigadoras, uma norteamericana e outra inglesa, sempre com igual peso. Nenhuma delas é posicionada como adversária ou side-kick. E o mais importante: ambas são humanas e o autor não tem o menor pudor em maltratá-las. Outra boa ideia é a opção sexual de uma delas. Carrie Stetko, a norteamericana, é lésbica. Se não seria fácil para uma mulher viver em um ambiente dominado por pesquisadores nerds e machistas, para Stetko é ainda mais dramático. No lugar de desejada, ela é ridicularizada por seus pares e as chances de encontrar uma igual são praticamente nulas. E sua parceira britânica, Lily Sharpe, não parece interessada.

Com um mistério praticamente ausente, o ambiente inusitado aliado ao carisma das duas personagens fisga o leitor já entre a quinta e a sétima página. E ainda que, perto do final, uma situação pareça redundante e outra soe inconvincente, o autor nos guia para um anticlímax, que, mais uma vez, evita o clichê de embates físicos entre mocinhos e bandidos. Os quatro quadros da última página refletem os quatro quadros da primeira e fecham a trama de forma simples e excelente, mostrando que as personagens sempre importaram mais do que a premissa criminal.

Lieber, o ilustrador, cria uma arte em preto e branco que privilegia o ambiente gelado. Céu e chão são inteiramente alvos, recebendo a interferência dos traços negros compondo pessoas, construções e objetos, preenchidos por hachuras, texturas ou efeitos de grafite e aerógrafo. Em alguns momentos, chega a ser o oposto do que Frank Miller fez em Sin City, outro quadrinho em preto e branco adaptado para o cinema, porém com a sombra prevalecendo sobre a luz.

O filme, que estreia no Brasil no próximo dia 2 de outubro, conserva o ambiente, mas, por incrível que pareça, a produção audiovisual não consegue envolver o público com a mesma intensidade da ambientação da graphic novel. De resto, foram preservados apenas os nomes das personagens, mas suas motivações são outras. Sharpe, inclusive, foi substituída por um par romântico masculino para Stetko. A ousadia de Rucka em se desvencilhar das amarras do gênero deu lugar à preocupação com a margem de lucro. Apenas com um caso policial para apresentar, sem atrativos, e a direção clichê dos thrillers de cinema, o resultado é um suspense genérico.

Whiteout: Morte no Gelo foi indicada ao Eisner Awards 1999, o Oscar dos quadrinhos, nas categorias Melhor Escritor, Melhor Ilustrador/Arte-finalista e Melhor Série Fechada. Em 2000, seu relançamento em versão encadernada a fez concorrer de novo, como Melhor Álbum Gráfico. Nesse mesmo ano, ganhou uma sequência, Whiteout: Ponto de Fusão (Whiteout: Melt), premiada como Melhor Série Fechada e publicada este ano no Brasil. Um terceiro volume, Whiteout: Night, foi prometido ainda para 2009 nos EUA.

No meio literário, Greg Rucka é conhecido por sua personagem Atticus Kodiak, que protagoniza sete de seus livros. Whiteout foi sua primeira experiência tanto nos quadrinhos quanto com personagens femininas fortes, o que se repetiu nas séries Queen & Country e Gotham City Contra o Crime (Gotham Central), ambas criadas por ele. Esta última narra as investigações e os dramas dos policiais da cidade do homem morcego, mas sem o herói. A série foi premiada no Eisner Awards 2004 pela história em cinco capítulos Meia-vida (Half a Life). Por coincidência, nela, a policial Renne Montoya tem suas vidas pessoal e profissional reviradas e, como consequência, sai do armário. Ainda resta que os grandes estúdios de Hollywood façam o mesmo.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Para assistir: Up

Pé no chão

Desde o primeiro Toy Story que a Pixar se tornou sinônimo de animação de qualidade. Não por sua competência técnica e gráfica, o que ela tem de sobra, mas pela sensibilidade em suas tramas e a humanidade das suas personagens. Com tanto esmero, o estúdio criou um desafio para si mesmo: atender às expectativas do público, elevadas a cada novo trabalho. Pois em Up, a Pixar catapulta mais uma vez seu próprio padrão. Sem trocadilhos. E com ele, o padrão para se julgar filmes de animação para a família.

O público cativo desse tipo de filme sabe que o “para a família” da Pixar é diferente do “para a família” da Disney, sua proprietária. Enquanto esta foca exclusivamente o público infantil, atingindo os pais por consequência, que encontram em suas fábulas os valores morais em que acreditam e desejam transmitir para seus filhos, a Pixar desenvolve suas histórias para conquistar os dois públicos, não racional, mas emocionalmente.

Up realiza esse feito já nos primeiros minutos. O filme possui a abertura mais realista - ou pessimista - de uma animação da Pixar. Ou de qualquer outro estúdio. Nela, está condensada a história de uma vida, com os sonhos da infância, as realizações da juventude, as escolhas da idade adulta, a chegada da velhice e a percepção da trágica sina do ser humano: por mais que amemos, estamos todos sós. A mensagem é direta e sem metáforas.

Só por isso, a trama já vai no sentido contrário ao de todos os contos de princesa, ou mesmo das animações anteriores do estúdio, que, por mais maduras que sejam, sempre condicionaram a realização do indivíduo ao sucesso afetivo, seja ao lado dos amigos, da família ou de um parceiro. O protagonista de Up, um velhinho ranzinza, não atravessa a história sozinho. Mas o sentimento de pertencimento a um grupo não é um fim em si na incessante busca pela felicidade. É uma consequência de como o indivíduo encara a vida. Afinal, tudo é finito.

Nesse fragmento da vida de uma pessoa que é o filme, a Pixar mais uma vez acerta no timing ao sobrepor momentos cômicos a dramáticos, de ação a reflexivos. Poucos conseguem fazer um “eu te amo” soar contraditoriamente terno, melancólico e engraçado, ao mesmo tempo. E não se trata de atores interpretando a fala, mas de códigos renderizados.

Assim como acontece em sua última produção, Wall-e, que se inspirou no filme 2001 – Uma Odisséia no Espaço para desenvolver sua segunda metade, a Pixar construiu Up, do meio até o final, espelhando-o em um clássico: o livro O Mundo Perdido, de Arthur Conan Doyle. Por isso, ambas as tramas soam tão familiares, revelando as excelentes referências dos seus criadores.

Falando nelas, Up contém várias alusões ao cinema e ao passado da Disney. Entre elas, o rosto e a personalidade do protagonista, que foram baseados nos atores Spencer Tracy (Adivinhe Quem Vem para Jantar) e Walter Matthau (Linhas Cruzadas). Já o nome do antagonista é uma menção a Charles Mintz, executivo da Universal Pictures que tirou de Walt Disney os direitos sobre o Coelho Osvaldo (Oswald, The Lucky Rabbit), levando o criador a substituí-lo pelo Mickey Mouse.

Up foi a estreia na direção de Bob Peterson (roteirista de Procurando Nemo e animador dos dois Toy Story), ao lado de Pete Docter (Monstros S.A.), com quem também escreveu o roteiro. Thomas McCarthy (O Visitante) ajudou na concepção da história. O elenco de vozes da versão norteamericana conta com Edward Asner (Um Duende em Nova York), Christopher Plummer (A Casa do Lago) e o estreante Jordan Nagai, dublando as personagens principais. Os dois diretores também participam, assim como Elie Docter, filha de Pete. O filme é precedido pelo curta Parcialmente Nublado, o primeiro dirigido por Peter Sohn, animador e artista de story board da Pixar.

Durante a produção, a premissa de uma casa que voa por meio de balões de gás rendeu comparações, no Brasil, com o caso do padre que morreu durante uma tempestade, ao viajar de forma semelhante. A atenção do público foi atraída principalmente pela coincidência, o que é uma pena. Up merece ser visto por muito mais do que isso.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Para ouvir: Stadtaffe

Cidade dos Macacos

Berlim é uma cidade feita de contradições. Memoriais a guerras, revoltas e mártires anônimos, que lembram períodos opressivos e de intolerância, convivem pelas ruas com obras arquitetônicas voltadas à confraternização, ao espírito humano e ao conhecimento erudito. Construções ultramodernas e arrojadas se erguem entre edifícios históricos com séculos de vida. O religioso e o profano convivem numa mesma praça. Onde antes havia um muro, restos de antigas ideologias se abrem para um mundo globalizado, que acena do outro lado da rua.

Em meio a essa atmosfera, uma nova geração de alemães procura entender a origem de tanta dicotomia. Os primeiros berlinenses em meio século a não conviver com uma ilha militarizada no centro da cidade hoje completam cerca de 20 anos. Como todos os jovens, eles estão em busca de autoconhecimento. Isso significa definir também a identidade do lugar onde vivem e sua relação com ele. Estabelecer essa ligação é um dos motivos para o sucesso do novo fenômeno da música local.

Peter Fox, também conhecido como Enuff ou pelo seu nome de nascimento, Pierre Baigorry, conviveu com o Muro de Berlim durante toda a infância e adolescência – a primeira metade de sua vida até agora. O socialismo ruiu ao mesmo tempo em que ele amadurecia e entrava na juventude. Hoje, já adulto, vive com sua família em Kreuzberg, uma das principais áreas da metrópole. Até a década de 1970, a região era conhecida pela pobreza, quando ainda fazia parte da zona isolada da capital alemã. Hoje, converteu-se em importante centro cultural da cidade unificada, lar de uma classe média emergente e onde estão importantes marcos da Guerra Fria.

O cantor é um produto das transformações que a cidade vem sofrendo desde o final dos anos 1980. Por isso, seu trabalho tornou-se um ponto de referência para os jovens alemães de nossa época. Suas canções expressam a inquietude de uma geração em busca de explicações para si mesma e o país. Em seu disco de estreia, Stadtaffe, ou Cidade dos Macacos, lançado há quase um ano, Berlim é a personagem principal e seus habitantes vagueiam atônitos, tão maravilhados quanto perdidos.

A faixa-título mescla o glamour e a decadência da cidade, convertendo-os em um retrato da juventude. Numa tradução livre do alemão: “Nós festejamos sem razão, venha fumar e beber / A festa é um sucesso e nós, surdos e cegos / Numa cidade cheia de macacos, tudo é barulhento e fedorento / (...) Macacos sempre celebram quando estão tristes”.

Na produção, Fox usa a bagagem que adquiriu como um dos vocalistas da banda Seeed, criada em 1998, unindo dois estilos de música negra: o hip-hop afroamericano e o dancehall jamaicano. A batida eletrônica harmoniza-se à percussão caribenha, com a assinatura da Cold Steel Drumline. A elas, misturam-se instrumentos de sopro e arranjos jazzísticos. Mas se as canções da banda são claramente situadas dentro do gênero do hip-hop, o trabalho solo de Fox é bem mais eclético. Além das referências afrodescendentes, várias faixas do CD contam com a participação da German Film Orchestra Babelsberg, orquestra sinfônica de Potsdam, cidade próxima à capital.

A fusão do ritmo das ruas e casas noturnas latinas com a música erudita é o que faz a canção Alles Neu (Tudo Novo) surpreender à primeira audição. Na letra, o cantor, pianista e violonista fala da nova carreira solo com uma autoafirmação juvenil, associando-a às atuais transformações estruturais em sua terra natal: “Livrei-me de tudo o que eu tinha / (...) Sou um update, Peter Fox 1.1 / (...) Compro máquinas de construção, escavadeiras, máquinas transportadoras e gruas / Corro por Berlim e aciono a sirene / (...) Sou a massa de demolição do cenário alemão”.

Stadtaffe e Alles Neu foram lançadas em formato single, assim como outras duas músicas do álbum. Uma delas, Haus Am See (Casa do Lago), é uma delicada balada com influência caribenha sobre a efemeridade dos sonhos e da vida: “Aqui eu nasci e fui para as ruas / Conheço cada rosto, cada casa e cada loja / Preciso ir embora (...) Eu me inclino para trás e olho o azul profundo / Fecho meus olhos e apenas sigo em frente / (...) Estou procurando por um novo país / Com novas estradas, rostos estrangeiros, ninguém que saiba meu nome / (...) E no fim da estrada há uma casa no lago / (...) Tenho 20 filhos, minha esposa é linda / Todo mundo vem para cá e eu nunca preciso sair”. Fox usa o indivíduo para falar do coletivo: a cidade que já foi capital do Terceiro Reich e da supremacia alemã, hoje abriga imigrantes de 190 países.

A outra é Schwarz zu Blau (Do Negro ao Azul), que oferece uma visão social de Berlim associada ao fim da balada noturna e à transição da noite para o dia: “Saio do clube, tudo correu bem / Cheiro a bebida, estou quebrado, é uma boa vida / (...) Namoradas histéricas gritam em pânico, porque na esquina há uma briga entre Tarek e Sam / (...) Bom dia, Berlim. Você parece ser tão feia, suja e cinza / Você pode ser tão bela e assustadora / Suas noites me devoram”.

Também merecem ser ouvidas as faixas Ich deine Steine, du Steine, a mais bela e lenta de todas, com uma orquestra de cordas que parece reproduzir o vai-e-vem do mar e uma letra que fala de um amor terminal (“A trilha atrás de nós é tudo o que nos mantém juntos”); Fieber (Febre), sobre o verão alemão e com a participação do grupo de hip-hop K.i.Z.; Schüttel deinen Speck (Balance seu Corpo), a mais próxima do dancehall, com um irresistível convite à dança e uma letra que abusa das metáforas entre sexo e comida; e Kopf Verloren (Cabeça Perdida), a melhor representante no álbum do hip-hop tradicional.

Após seu lançamento em 2008, Stadtaffe alcançou o primeiro lugar nas paradas musicais da Alemanha e Hungria. Em 2009, a estreia de Peter Fox lhe rendeu uma vitória no Echo Awards, promovido pela Academia Fonográfica Alemã, na categoria Hip-hop/Urban, além do Prêmio dos Críticos e da escolha como Produtor do Ano. Assim como as letras ecoam pelos questionamentos dos jovens, a mistura de influências encontra paralelo no caldeirão da própria cidade. Berlim não apenas ouve, mas fala através das músicas.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Para assistir: O Visitante

Lar estrangeiro

Sean Penn foi o grande vencedor do Oscar de Melhor Ator neste ano, por “Milk: A Voz da Igualdade”. Mesmo desaparecendo sob a pele do ativista gay Harvey Milk, sua atuação vitoriosa foi ameaçada pelo desempenho de Mickey Rourke em “O Lutador” e pela presença de Brad Pitt no caçador de prêmios “O Curioso Caso de Benjamin Button”. Nessa seleção de melhores, que também incluiu Frank Langela por “Frost/Nixon”, o único nome improvável era o de Richard Jenkins (Queime Depois de Ler).

Com formação no teatro, participação em séries de TV e presença tanto em filmes comerciais quanto de cineastas reconhecidos, como Lawrence Kasdan, Woody Allen, Sydney Pollack e os irmãos Coen, Jenkins sempre foi “o homem que não estava lá”, “o ilustre desconhecido” que todo mundo lembra, mas ninguém sabe de onde. Querido em Hollywood por sua personalidade agradável e com 58 longas em 24 anos de carreira, o ator representou no Oscar o papel de “azarão”. Em “O Visitante”, Jenkins convence, mas certamente não sobressai entre os concorrentes. Entretanto sua primeira indicação chamou a atenção para um ótimo pequeno filme que, do contrário, poderia se perder.

Jenkins vive um professor que retorna a New York após um longo período ausente, a trabalho. Para sua surpresa, encontra dois imigrantes morando em seu apartamento. Sua primeira reação é expulsá-los, mas logo se vê dividindo o lugar com eles. A história inteira é uma grande metáfora sobre os principais problemas da globalização: as diferenças socioeconômicas entre as nações e o movimento migratório em direção aos países mais abastados.

Como se sabe, as desigualdades ao redor do planeta, herdadas após séculos de colonialismo, são o maior entrave para o tão almejado desenvolvimento global paritário. A opinião expressa pela produção estadunidense é de que, para remediar essa situação, os países do chamado Terceiro Mundo necessitam da solidariedade e boa vontade do Primeiro Mundo. Ao acolher um sírio e uma senegalesa embaixo de seu teto, o professor concretiza esse ideal.

É um discurso perigoso, pois poucos diferenciam a solidariedade da caridade e do paternalismo, estes sim uma afronta à soberania e identidade dos países. Aqui, a palavra é utilizada no sentido de compreensão e cooperação. Para se fazer entender, o roteiro insere o protagonista nos costumes de seus hóspedes, e não o contrário. Inicialmente através da música, a personagem principal vai se enquadrando no dia-a-dia dos povos subdesenvolvidos e assimilando seus hábitos - diferente da mulher que, em certa cena, adquire artesanato africano na rua e demonstra total desconhecimento de sua origem.

Essa inversão de papéis entre o proprietário e seus visitantes também serve para expressar o sentimento norte-americano diante de um país cada vez mais construído por imigrantes. Estes não apenas cozinham e servem à mesa, mas tomam as decisões dentro do apartamento. São eles quem levam o professor para conhecer os locais que gostam de frequentar na cidade. Entre eles, a Estátua da Liberdade e a Ellis Island, porta de entrada dos imigrantes europeus no pós-guerra. O norte-americano é um estranho, um visitante em seu próprio país – algo que a última cena vem confirmar.

A New York captada pela lente da câmera também é menos cinzenta e mais calorosa em sua multiplicidade étnica. Durante o dia, os imigrantes ocupam as ruas com sua arte e diferentes línguas. Ao entardecer, vemos à contra-luz um vulto feminino longilíneo, repleto de adereços exóticos, avançando por uma avenida ao som do batuque africano. À noite, a percussão pode ser ouvida em um bar de jazz, para uma plateia composta por negros, árabes e latinos. O protagonista observa a tudo isso com um misto de estranheza e encanto, como que abrindo os olhos pela primeira vez. Pena que sua reação, numa crítica mordaz à alienação estadunidense, venha tarde demais.

“O Visitante” foi o segundo filme escrito e dirigido pelo ator Thomas McCarthy (A Conquista da Honra), que estreou atrás do roteiro e das câmeras em “O Agente da Estação”. Além de Jenkins, o elenco conta com Haaz Sleiman (AmericanEast), Hiam Abbass (Munique), Richard Kind (Os Produtores) e a estreante Danai Jekesai Gurira. A produção foi exibida pela primeira vez no Festival de Toronto de 2007, mas somente entrou no circuito das salas de cinema em abril de 2008. No Brasil, estreou em março de 2009. Você confere o trailer aqui.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Para assistir: melhores do trimestre

Quem quer ser um deles?

Durante o primeiro trimestre do ano, vários grandes lançamentos disputaram o ingresso dos cinéfilos, principalmente devido à concorrência dos principais estúdios pelos dois maiores prêmios do cinema ianque, o Globo de Ouro e o Oscar. Com o ritmo da corrida à sala escura normalizado, selecionei os três filmes que mais me chamaram a atenção dentro desse período para comentar rapidamente. Vale lembrar que algumas produções importantes, como Frost/Nixon, Milk e Dúvida, não estrearam nos cinemas do estado de janeiro a março e, por isso, não foram considerados.

Náufragos do casamento

Hollywood parece ter encontrado uma nova fonte de idéias para seus filmes: a lista da revista Time com as 100 melhores obras literárias do século XX. No espaço de um ano, três adaptações dessa relação ganharam as telas: “Desejo e Reparação”, no ano passado, “Watchmen”, o mais recente, e o romance escrito originalmente por Richard Yates, “Foi Apenas Um Sonho”. O diretor Sam Mendes (Soldado Anônimo) volta ao subúrbio norte-americano, já visitado em “Beleza Americana”, para desconstruir mais uma vez o núcleo familiar burguês. A diferença é que, nesta nova incursão, Mendes não faz concessões.

Se a melancolia do seu filme de estréia era apenas um dos ingredientes, ao lado de humor ácido, clima de mistério e paixão adolescente, aqui ela dita o ritmo e o tom da história do início ao fim, tornando-a menos palatável ao grande público. Não à toa, ao contrário da produção de 1999, a mensagem sem esperança de “Foi Apenas Um Sonho” saiu completamente ignorada do Oscar. O filme sequer foi indicado às principais categorias, ao contrário do Globo de Ouro, não tão conservador.

Apesar de funcionar por completo, o grande destaque da película são as escolhas do roteiro e as sutilezas do diretor. A narrativa exclui qualquer elipse temporal, criando surpresas onde normalmente não haveria. Da cena em que o jovem casal se conhece, Mendes parte direto para outra situação, que culmina em briga. Ao longo da discussão percebemos que anos se passaram desde o primeiro encontro. Ainda assim, não fazemos ideia do quanto. E isso nos leva a um novo imprevisto, inteligentemente revelado junto com uma festa de aniversário surpresa.

Crucial à mensagem foi a escolha dos atores para viver os protagonistas com o casamento em crise: Kate Winslet, esposa de Mendes na vida real, e Leonardo DiCaprio, ambos ainda vivos na lembrança do público como o casal de “Titanic”. Mesmo não se passando em um idílico transatlântico, a história reserva paralelos propositais com o épico romântico de James Cameron, como a cena de sexo no carro e o desfecho, deturpando radicalmente o significado de ambos e reclamando um espaço na história da cinematografia.

E como não mencionar o longo zoom out, próximo ao final, com a personagem de Winslet observando a vida pela janela, tendo o fruto de seu casamento derramado no tapete da sala impecável? É o filme inteiro resumido em uma cena. Se perdeu no cinema, fique com o trailer enquanto aguarda o DVD.

A adaptação de “Foi Apenas Um Sonho” é apenas o segundo trabalho do roteirista Justin Haythe (Refém de Uma Vida). Além do casal principal, seu elenco ainda conta com Michael Shannon (As Torres Gêmeas), Kathy Bates (Titanic), Richard Easton (Encontrando Forrester), David Harbour (007 – Quantum of Solace), Kathryn Hahn (Quase Irmãos) e as crianças Ty e Ryan Simpkins (Força Policial), irmãos na vida real.

O filme foi indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante, para Michael Shannon, Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino. Recebeu maior evidência no Globo de Ouro, ao qual concorreu por Melhor Filme – Drama, Melhor Diretor e Melhor Ator, para DiCaprio, e venceu por Melhor Atriz, para Winslet. Importante lembrar que a moça também levou o prêmio na categoria Melhor Atriz Coadjuvante, por “O Leitor” (de Stephen Daldry), que também lhe valeu o Oscar de Melhor Atriz.

Bela fábula sem piedade

Sem estrear a tempo de concorrer nas premiações mais recentes, mas desde já uma promessa para o próximo ano, “Coraline e O Mundo Secreto” é um exemplo raro de adaptação. Resenhas por toda parte elogiam o trabalho do diretor e roteirista Henry Selick (O Estranho Mundo de Jack) ao criar novas personagens, arredondar ainda mais a trama e inserir detalhes no ambiente não citados no livro de Neil Gaiman (Sandman) e que contribuíram para o clima sombrio do filme. Mas parece que ninguém afirma o óbvio: a produção de Selick é melhor que o livro.

Isso não é pouco. Na época de seu lançamento nas livrarias, “Coraline” foi exaltado pela crítica como o primeiro conto de fadas contemporâneo, o novo “Alice no País das Maravilhas”. As similaridades com o texto de Lewis Carroll são evidentes: o gato, o espelho e até o túnel para um universo paralelo. A diferença é que esse mundo é igual ao nosso, exceto pelos detalhes mágicos e uma vida aparentemente perfeita. As referências à cultura britânica não páram por aí. O inglês Gaiman inclui no texto um trecho de Hamlet, de Shakespeare, e faz uma citação ao poema “La Belle Dame sans Merci” (A Bela Dama Sem Piedade), que o poeta romântico John Keats escreveu em 1819.

Tudo isso foi reaproveitado por Selick. Além de dar forma à riqueza do texto original, o diretor-roteirista cria seu próprio tesouro. “Coraline e O Mundo Secreto” é o mais longo filme feito em stop-motion até hoje, com 1h40min de duração, e o primeiro com essa técnica a ser filmado inteiramente em 3D. Mesmo em uma sala de cinema não preparada para transmitir a sensação de profundidade proporcionada, as formas e cores saídas da imaginação de Selick impressionam.

Seja a beleza exagerada do jardim do outro mundo, seja a aridez mórbida do terreno em torno da casa real da protagonista, é impossível ficar impassível às imagens. Nas crianças, o filme causa medo legítimo. Nos adultos, provoca certo desconforto. Quem não sentiu um frio na espinha ao ver de perto a ponta de uma agulha costurando os botões nos olhos de uma boneca de aspecto infantil? Ou mesmo sua boca? Mas essas sugestões visuais violentas devem passar despercebidas pelos infantes.

O que pode afastar as crianças é a incompreensão de algumas cenas, já que o roteiro não segue a cartilha Disney de adaptação. Com o mesmo efeito, Coraline não é uma protagonista em quem o público infantil se veja refletido. Ela é introspectiva e extremamente aborrecida, daí seu carisma certeiro entre os adultos. “Coraline”, portanto, é uma animação mais voltada a uma platéia madura, que se identifica com o tom de fábula e o gênero infanto-juvenil. Confira o trailer.

“Coraline e O Mundo Secreto” é o primeiro roteiro para longa metragem de Henry Selick, que até então só havia assumido a cadeira de diretor e escrito dois curtas. A dublagem norte-americana conta com as vozes de Dakota Fanning (Guerra dos Mundos), Teri Hatcher (O Resgate de Um Campeão), Jennifer Saunders (Shrek 2), Dawn French (As Crônicas de Nárnia: O Leão, A Feiticeira e O Guarda-roupas), Keith David (Liga da Justiça: A Nova Fronteira), John Hodgman (Uma Mãe para Meu Bebê), Robert Bailey Jr (Fim dos Tempos) e Ian McShane (Scoop: O Grande Furo). O livro, lançado em 2002, foi premiado com o Hugo Award em 2003 e traz ilustrações de Dave McKean (Asilo Arkham), frequente colaborador de Gaiman.

Neil Gaiman é um dos autores que fizeram parte da conhecida invasão britânica no mercado norte-americano de quadrinhos durante os anos 1980. Aclamado pela crítica literária por seu trabalho na série “Sandman”, unindo cultura pop, mitologia e religião, posteriormente migrou de fato para a literatura, onde escreveu “Deuses Americanos” e “Os Filhos de Anansi”, entre outros títulos. Antes de “Coraline”, foi adaptado pela primeira vez para o cinema no filme “Stardust” e estreou como roteirista, ao lado de Roger Avary, em “A Lenda de Beowulf”.

Vida a nocaute

Simples, sensível e verdadeiro. Depois dos complexos “Pi” e “Fonte da Vida” e do angustiante “Réquiem para Um Sonho”, o diretor Darren Aronofsky retorna com seu trabalho mais linear e nos surpreende com o filme do ano. Uma produção independente de orçamento baixíssimo (míseros U$ 7 milhões), “O Lutador” é uma fábulas às avessas em que um aposentado dos ringues busca redenção no diálogo com a filha e nos braços de uma striper.

Aronofsky filma com câmera na mão, apegando-se à realidade para conduzir o público à emoção. É dessa realidade que o lutador do título, interpretado por Mickey Rourke (Sin City: A Cidade do Pecado), fugiu durante toda a vida. Agora, às portas da morte, procura reatar os poucos laços que um dia possuiu com ela. Pode soar piegas, melodramático ou clichê, mas o filme nunca cai nessas armadilhas tão comuns ao gênero. E por isso sai fortalecido.

A incapacidade do protagonista de se relacionar com as pessoas e encarar os fracassos da própria vida o leva a viver mais intensamente do lado de dentro das cordas, onde os resultados são previsíveis. Seu medo de viver é materializado no dia-a-dia fake das lutas arranjadas, na dupla identidade de sua paixão e na prevalência da figura de colant sobre o homem por baixo dela. Em certa cena, ele brinca ao lado de um garoto com um videogame. A personagem do jogo é ele mesmo. Como Sam Mendes fez em “Foi Apenas Um Sonho”, resumindo a trama em uma cena, “O Lutador” é sintetizado numa frase: “o único lugar em que eu me machuco é lá fora”.

Rourke aceitou protagonizar o filme, aparecendo em todas as cenas, sem ganhar nada. O mesmo fez Bruce Springsteen, ao compor a triste canção homônima, “The Wrestler”: “Have you ever seen a one-legged dog making its way down the street? / If you’ve ever seen a one-legged dog then you’ve seen me”. Ambos saíram premiados como Melhor Ator e Melhor Canção no último Globo de Ouro. E se o desempenho do ator passou batido pelo Oscar e a produção sequer foi indicada a Melhor Filme, o Festival de Veneza a consagrou com seu prêmio máximo, o Leão de Ouro. Fique com o trailer e acrescente à sua lista de filmes para alugar.

“O Lutador” conta com o roteiro do estreante Robert D. Siegel, que anteriormente havia apenas escrito “The Onion Movie”, uma sátira jornalística lançada direto em DVD. Ao lado de Rourke no elenco, estão Marisa Tomei (Antes Que O Diabo Saiba Que Você Está Morto), que concorreu ao Oscar de Melhor Atriz, Evan Rachel Wood (Across The Universe) e Mark Margolis, que participou de todos os quatro filmes de Aronofsky.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Para ler: O Curioso Caso de Benjamin Button

Fidelidade literária

Francis Scott Fitzgerald é considerado um dos maiores escritores americanos do século XX. Esse título ele conquistou por meio de uma obra pertinente, que reflete o ambiente social de uma época importante e que ele próprio definiu como “a era do jazz”: os anos 1920, entre o fim da 1ª Guerra Mundial e a Grande Depressão. O que o grande público ignorava é que o autor flertou com a fantasia em algumas histórias de menor projeção, durante décadas relegadas à sombra de romances como “Este Lado do Paraíso”, “Belos e Condenados” e “O Grande Gatsby”. A recente adaptação para o cinema de uma dessas histórias, “O Curioso Caso de Benjamin Button”, iniciou um resgate de várias tramas curtas e obscurecidas que, mesmo com premissas fantásticas, não deixam de retratar o espírito daquele tempo.

Para o bem ou para o mal, o que assistimos na sala escura passa bem longe do original de Fitzgerald. Excetuando-se o fato que desencadeia toda a trama, um homem nascer velho e morrer bebê, nada resta das palavras do autor: personagens, enredo, contexto ou significados. Felizmente, na esteira do filme, outros profissionais se mexeram para trazer o texto-base de volta à luz. No Brasil, a editora José Olympio não só reeditou o livro “Seis Contos da Era do Jazz e Outras Histórias”, publicado no país pela primeira vez em 1987 e do qual “O Curioso Caso” faz parte, como também lançou uma nova compilação com o título “O Curioso Caso de Benjamin Button e Outras Histórias da Era do Jazz”, bem mais atraente para o espectador que sai do cinema e vai direto à livraria.

Mas o lançamento mais peculiar é uma outra adaptação, para os quadrinhos. Publicada nos EUA no ano passado pela Quirk Publishing e rapidamente impressa aqui pela Ediouro, a versão ilustrada de “O Curioso Caso de Benjamin Button” conserva a pena de Fitzgerald: são a narração e os diálogos imaginados pelo escritor que lemos de um quadro a outro. A adaptação foi realizada pelo casal Nunzio DeFilippis e Christina Weir (Skinwalker), com experiência em roteiros para a arte seqüencial e a televisão. Do texto original, os dois cortaram apenas os trechos que ficariam melhor expressos pelas belas pinturas de Kevin Cornell, ilustrador e designer americano. Cornell utiliza aquarela com tons pastéis direto sobre seus desenhos em grafite, captando com perfeição a época em que o conto foi escrito.

A primeira característica curiosa que vem à mente do leitor que inicia a leitura da HQ é a pouca atenção dada pelo autor à mãe de Benjamin. Após as três primeiras páginas, em que recebe tanta importância quanto o marido, a senhora Button só volta a ser mencionada em um quadro de um capítulo mais adiante. É o pai, Roger Button, quem busca o filho na maternidade e se responsabiliza por sua criação, impondo regras e comprando-lhe roupas e brinquedos. A ausência da mãe, ou mesmo o seu silêncio quando citada, é uma consequência direta do papel que a mulher exercia na sociedade daquele tempo.

A história se desenrola durante sete décadas, de 1860 ao fim dos anos 1920. Nesse período, atravessamos dois conflitos importantes para os EUA: a Guerra Hispano-americana e a Primeira Guerra Mundial. A anterior recebe maior destaque, pois é quando Benjamin se torna um herói. Foi nela que os Estados Unidos enfrentaram a Espanha e retiraram da nação europeia o domínio sobre Cuba, Porto Rico, Guam e as Filipinas. O autor utiliza o orgulho nacional militar para dar um revés na vida do protagonista e em sua situação perante a sociedade. É nessa época que a personagem também atinge sucesso nos negócios da família, acompanhando a aurora do capitalismo.

Em comparação com a tela grande, a premissa fantástica de Fitzgerald é ainda mais surreal nas páginas do escritor. Aqui, Benjamin não nasce como um bebê envelhecido, mas como um homem adulto de 70 anos. Além de ostentar barba e bigode, em suas primeiras horas de vida ele já é capaz de falar e andar. Também não demonstra qualquer interesse pelas atividades infantis e prefere passar horas conversando com seu avô. O desenvolvimento mental acompanha o desenvolvimento físico da personagem. Se no conto essa realidade parece inimaginável, tanto que recebeu severas críticas quando foi publicado pela primeira vez, em 1922, sua visualização nos quadrinhos é um delicioso absurdo.

“O Curioso Caso” inicia como uma comédia assumida e somente aos poucos vai ganhando contornos mais dramáticos, à medida que Benjamin consegue se inserir na sociedade e nossa apreensão aumenta por sermos os únicos, além do narrador, a compreender sua condição singular e seu destino fatídico. E aí há uma diferença crucial entre filme e conto. Enquanto o primeiro desenvolve uma narrativa em tom de fábula, com personagens pitorescos que atravessam a vida do protagonista como se este vivesse em um mundo mágico, um país das maravilhas, o segundo insere Benjamin numa trajetória de vida que poderia pertencer a qualquer um. Ele nasce e cresce na mesma cidade, serve ao exército, cursa a faculdade, ainda que na ordem contrária, casa-se, tem filhos e vive com sua família até o fim da vida.

Dessa forma, DeFilippis e Weir preservam o significado da história contada por Fitzgerald. O autor imaginou a trama após ler uma biografia sobre outro escritor estadunidense, Mark Twain, na qual o criador de Tom Sawyer lamenta que a infância, melhor parte da vida de um homem, ocorra no início, deixando a pior para o final. Enquanto Twain culpava Deus por sua escrita ao contrário do ideal, Fitzgerald comprou a proposta e mostrou que a alegria e a tristeza são próprios do início e do fim da vida, respectivamente, não importa como ou por onde ela comece ou termine. Se os primeiros capítulos de “O Curioso Caso” são divertidos, mostrando os desentendimentos e as tentativas de aproximação entre pai e filho, o final é trágico, com uma criança ignorada por seus familiares. Nossa vida não é justamente assim? Essa transição do gênero narrativo, do humor ao drama absolutos, não seria suportada no cinema de shoppings, mas a escrita de Fitzgerald, a adaptação de DeFilippis e Weir e as ilustrações de Cornell a conduzem com naturalidade.

De modo semelhante, o ideário cinematográfico de amor eterno e impossível vendido pela história na tela vai no sentido contrário do romance realista descrito no conto. Benjamin se casa aos 20 anos com uma jovem da mesma idade, mesmo aparentando ter 50. À medida que ela envelhece e ele perde suas rugas, o sentimento tem o mesmo destino da grande parte dos casamentos, o que reforça a identificação do leitor e a melancolia do final. A tragédia de Button é a mesma de todos nós.

Durante as primeiras semanas deste ano, “O Curioso Caso de Benjamin Button” em quadrinhos era a única forma que os leitores brasileiros tinham de conhecer o conto original. Quando a Ediouro o lançou nas livrarias, a antiga edição da José Olympio estava esgotada e a nova coletânea ainda não havia chegado às prateleiras. A curta história foi publicada pela primeira vez em 1922, numa edição da revista Collier's Weekly, e somente depois, no mesmo ano, foi incluída no livro “Tales of The Jazz Age”, que o Brasil só viria a conhecer em 1987. Você pode lê-la na íntegra, em inglês, no Google Books.

As obras autorais de Nunzio DeFillippis e Christina Weir nunca foram publicadas no país, mas os fãs brasileiros de quadrinhos já os conhecem por seus trabalhos nas duas principais editoras norte-americanas, a Marvel Comics e a DC Comics, nas quais escreveram os títulos “Novos X-Men: Academia X” e “Mulher Maravilha”. Já Kevin Cornell é um designer multimídia, cuja arte pode ser conferida no seu blog pessoal e faz toda a diferença entre a prosa corrida e o texto ilustrado. O estilo das pinturas e a expressividade nos rostos de suas personagens ajudam a apreciar ainda mais o conto. Na Internet, você pode conferir o primeiro capítulo da HQ e ainda visitar o site que a Ediouro preparou especialmente para a obra.

sábado, 28 de março de 2009

Para ouvir: Sou

Um por todos

Logo mais, à noite, Marcelo Camelo realizará seu primeiro show em Vitória – ES após o fim da banda Los Hermanos. A apresentação faz parte da turnê pelo Brasil do primeiro álbum solo do compositor, cantor e violonista carioca: “Sou”. O título do CD parece uma autoafirmação solitária do artista diante de sua atual fase. Mas também revela já na capa o tom intimista que conferiu ao seu trabalho de estreia.

Apesar do acompanhamento da banda de post-rock paulista Hurtmold, sempre vigorosa, a serenidade é a marca de “Téo e a Gaivota”, faixa que abre o álbum. Os instrumentos são executados de forma que lembre uma passagem informal de som e a dissonância entre eles lá pelo meio da canção evidencia o individualismo melancólico que percorre todo o trabalho. Até Camelo canta em um tom mais grave e baixo que o normal: “Toda dor repousa na vontade / todo amor encontra sempre a solidão”.

Mas a música quem vem recebendo maior destaque da mídia é “Janta”, um dueto de Camelo com a namorada e cantora-revelação de 2008 Mallu Magalhães. Enquanto um canta em português e o outro em inglês, reforçam a incomunicabilidade entre dois apaixonados: “Eu quis te convencer, mas chega de insistir / Caberá ao nosso amor o que há de vir / Pode ser a eternidade má / Caminho em frente pra sentir saudade”. A canção foi escolhida pela revista Rolling Stone como a melhor de 2008.

Ao mesmo tempo em que o artista abriu espaço para talentos em ascensão, também contou com convidados ilustres. Em duas faixas, a pianista erudita Clara Sverner constrói versões instrumentais para duas canções do CD, “Passeando” e “Saudade”. Nas versões originais, ouvimos apenas Camelo dedilhando seu violão, interrompido por sua voz sussurrante. As letras, claro, expressam a solidão do autor, quer existencial (“E lá vai Deus sem sequer saber de nós / saibamos pois / estamos sós”), quer romântica (“Caberia a quem dizer: / “Amor, eu vivo tão sozinho de saudade”).

Outra parceria é com o sanfoneiro Dominguinhos na faixa “Liberdade”: “É, Deus, parece que vai ser nós dois até o final / Eu vou ver o jogo se realizar de um lugar seguro”. Essa é uma das três melodias em que Camelo foi buscar inspiração no som regional do Nordeste brasileiro. As outras duas são a romântica “Menina Bordada” e a fatalista “Vida Doce”, que encerra o álbum com a participação de um coro masculino: “Vida que é doce levar avisa de lá que eu já sei / Todo balanço que dá neste navegar naveguei”.

O trabalho autoral de Camelo tem rendido várias comparações com outro cantor e compositor carioca, Chico Buarque, que também apresenta em algumas canções uma batida mais regional. Mas a proximidade entre os dois artistas pode ser melhor conferida em faixas como “Copacabana” e “Santa Chuva”. Na primeira, Camelo utiliza a riqueza dos metais e da percussão para compor uma rica e bela marchinha sobre o Carnaval carioca, no estilo de “A Banda”. Já na segunda, ele encarna uma mulher para cantar sua melancolia diante de um sentimento traído, como Buarque já fez diversas vezes. A música, inclusive, fora gravada por Maria Rita em seu primeiro CD.

Completando o álbum, há ainda a minimalista “Tudo Passa”, a delicada “Doce Solidão” e a encorpada “Mais Tarde”, que substitui o violão dedilhado pela guitarra. “Sou” foi gravado em novembro de 2007, mas seu lançamento só ocorreu no segundo semestre de 2008. 10 faixas foram lançadas primeiro na Internet, no final de agosto, através do Sonora, o site de música do portal Terra. O CD completo, com 14 faixas, chegou às lojas somente em setembro. A capa traz um poema do artista plástico Rodrigo Linhares.

Antes de iniciar sua carreira solo, Marcelo Camelo já compunha paralelamente ao seu trabalho na banda Los Hermanos. Suas canções eram interpretadas por cantoras nacionais, como Maria Rita, que incluiu quatro canções do autor no seu disco de estreia, fazendo seu nome despontar para fora do círculo de fãs do grupo. Los Hermanos se reuniram mais uma vez recentemente para abrir o primeiro show do Radiohead no Brasil. Dos seus quatro CD’s lançados em dez anos de vida, o segundo, “Bloco do Eu Sozinho” (2001), e o terceiro, “Ventura
(2003), foram incluídos pela Rolling Stone em sua lista dos 100 maiores discos da música brasileira. A carreira individual de Camelo já nasceu rodeada de promessas e expectativas.