Dor. Essa é a palavra profética pronunciada ao final de A Festa da Menina Morta. Profecia retroativa, porque doloroso é o caminho até ela. O respeitado ator Matheus Nachtergaele (Baixio das Bestas) estreia no roteiro e direção de um filme, revelando um olhar cru e cruel, áspero e seco, de difícil deglutição.
O que mais incomoda na história é a proximidade entre céu e inferno, espiritualidade e selvageria. No centro do misticismo católico-profano de uma comunidade à beira do Amazonas está uma figura que, ao mesmo tempo em que abençoa e faz milagres, também carrega características homoeróticas e é vítima/cúmplice de incesto.
Se nós, moradores das grandes cidades brasileiras, reagimos com estranheza diante da realidade de um outro brasil, tão distante, seria hipocrisia culpar o público europeu que chegou a abandonar a exibição no meio do Festival de Cannes, onde A Festa da Menina Morta estreou em 2008 durante a mostra Um Certo Olhar.
O filme é composto por longos fragmentos arrastados, fechados em si mesmos, porém conectados em sentido e pelo enredo. Simbolizando o primitivismo da população, há vários inserts entre as cenas, todos com animais encarcerados, domesticados, camuflados ou abatidos.As primeiras informações sobre o que se desenrola vão sendo mostradas aos poucos, de maneira sutil, até que as dúvidas e negações do público sejam escancaradas na tela. Nachtergaele joga com os valores e a permissão da plateia. Ao longo da trama, o diretor fornece apenas parcas tintas, o necessário para que, no clímax – um longo e intenso diálogo durante o qual ele reflete sua experiência teatral nos atores –, cada espectador complete seu próprio quadro, ora mais cético, ora mais místico.
As atuações recriam tanto a naturalidade da população ribeirinha quanto o gestual exagerado do teatro. No primeiro caso, revelam as bases reais para a concepção da história, inspirada numa celebração religiosa que o diretor testemunhou no interior da Paraíba, quando ainda atuava em O Auto da Compadecida. No segundo, transpõem para a tela uma arte que, muitas vezes, requer um talento mediúnico para fazer os outros acreditarem naquilo que não está lá.
Além de dirigir, Nachtergaele co-escreveu A Festa da Menina Morta com Hilton Lacerda, mesmo roteirista dos igualmente vicerais Amarelo Manga e Baixio das Bestas, nos quais o diretor atuou. Nos papéis principais estão Jackson Antunes (2 Filhos de Francisco), Juliano Cazarré (Nome Próprio), Daniel de Oliveira (Cazuza – O Tempo Não Pára) e Dira Paes (Baixio das Bestas), contando ainda com as participações de Paulo José (Saneamento Básico) e Cássia Kiss (Chega de Saudade).Apesar do filme só ter entrado em cartaz no circuito nacional em junho deste ano, ele vem rodando vários festivais no Brasil e no mundo desde 2008. No ano passado, em Gramado, conquistou o Kikito de Ouro nas categorias Melhor Ator (Daniel de Oliveira), Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora. E apesar de não ter levado o troféu de Melhor Filme, recebeu o Prêmio Especial do Júri, o Prêmio da Crítica e foi eleito o Melhor Filme pelo Júri Pupular. Obrigatório.



































